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Ritualizando 15 anos de Dança do Ventre

Apesar dos quinze anos dedicados profissionalmente à dança do ventre, tenho consciência de que sempre fui aprendiz. A dança do ventre começou a se estabelecer no Brasil há apenas três décadas e seu pólo de desenvolvimento foi no início, principalmente, São Paulo. Na velocidade com que as novas tecnólogicas se incorporam à nossa vida, talvez seja difícil imaginar que há quinze anos atrás não existisse cd, dvd nem internet. Ou seja, basicamente o aprendizado teria que ser presencial, custoso e com escassos materiais pra continuidade dos estudos, especialmente pra quem não morasse na cidade de São Paulo. Com certeza, uma aluna atualmente em qualquer cidade do país, adquire conhecimento e habilidade técnica com muito mais rapidez do que há mais de uma década atrás. Não sei dizer exatamente porque, mas encarei essa jornada, mesmo morando a 2000 km da fonte de estudo. Foi dessa forma que, com idas e vindas de SP, construi trabalhosamente meu aprendizado inicial e, paralelamente, fui ensinando outras pessoas.

Gosto sempre de lembrar que minha história com a dança do ventre não está separada da minha históriaBela Saffe com a psicologia. Eu já era psicóloga antes de ser professora e dançarina do ventre. Aliás, um dos meus interesses incial (e ainda atual) nesse estilo foi justamente perceber a possibilidade de uma conexão mais profunda com a feminilidade. Pessoalmente, na prática com a dança, percebi que os movimentos favoreciam essa experiência de forma genuína. Apesar de saber que uma atividade não substitui a outra, dança e psicoterapia podem de fato se complementar e, a depender do direcionamento que é dado, proporcionar à mulher uma vivência mais saudável de sua feminilidade.

Muitas pessoas tem interesse em saber como comecei com a dança do ventre. Talvez parte dessa curiosodade surja do fato de eu ter sido a primeira a anunciar e a dar aulas em Salvador. Falei e escrevi essa história de outras vezes e de outras maneiras. Mas, fechando um ciclo, resolvi re-escrevê-la.

Aproveitando o comentário sobre o pioneirismo, sinceramente, não acho que isso seja um grande mérito. Não que eu despreze ou menospreze essa experiência e fato. Apenas acho que foi uma circunstância. Outras profissionais iniciaram suas atividades quase na mesma época. Além disso, o dinamismo da dança é tão grande que me prender a esse fato pode ser uma enorme perda de tempo.

Voltando então à minha história na profissão, iniciei as atividades em janeiro de 1994. Minha história com a arte cênica (dança e teatro), no entanto, não começou aí. Resumidamente, iniciei com o ballet clássico com dez anos de idade e permanenci até os 20 anos. Cansada dos repertórios ultrapassados do ballet, migrei para o teatro. Logo em seguida voltei a dançar, mas dessa vez outros estilos: moderno, afro, contemporâneo.

Descobri a dança do ventre através do teatro. Eu precisava fazer uma cena basicamente dançada e era, justamente, de dança do ventre. Eu não sabia absolutamente nada desse estilo e, em 1993 em Salvador não existiam professoras, nem tão pouco acesso a vídeos, revistas, informações e muito menos ”youtube”. Inventei passos a partir do que minha imaginação criava, recordando cenas esfumaçadas de filmes vistos outrora e do que meu sangue de libanesa guiava. Fiz a cena no espetáculo e... foi um sucesso! Realmente me empolguei e convenci a todos e a mim mesma que eu sabia dançar dança árabe.

Claro que não parei por aí. Sabia que precisava estudar, fazer aulas, conhecer realmente o estilo. Somado à isso, estava o desejo de me aproximar mais de uma cultura da qual sou herdeira. De qualquer forma, eu já tinha mordido a maçã e agora precisava correr atrás. Quando soube que em São Paulo existiam boas professoras de dança do ventre, fui pra lá. Me recomendaram assistir bailarinas numa tal casa de chá egípcia chamada Khan El Khalili. Fui. Tive a honra e a sorte de assistir pela primeira vez dança do ventre através de Nájua! Inesquecível! Outra mordida na maçã!

Depois de ter sido totalmente capturada, não me restou outra alternativa a não ser passar um período maior em São Paulo, fazendo aulas intensamente, tanto particulares quanto em grupo. De volta a Salvador, resolvi que começaria a dar aulas. Tinha plena consciência de que não tinha obtido conhecimento amplo da técnica, mas desejava continuar os estudos e, pra isso, precisava de recursos pra retornar muitas e muitas vezes a São Paulo. Além disso, me sentia segura por que já trabalhava dando aulas de dança e preparação corporal para atores e tinha na bagagem mais de dezesseis anos de aulas nos mais diferentes estilos de dança. Pra complementar, sincronicamente, entrei no curso de especialização em coreografia da Escola de Dança da UFBA nesse mesmo ano.

Os dois primeiros anos foram de muito entusiasmo e alegria. Tudo era novidade, descoberta. Adorava ver mulheres das mais diferentes idades e dos mais diferentes corpos dançando, descobrindo novos gestos, se aproximando de sua feminilidade. Como já mencionei, encontrava aí também um recurso para aprofundar questões do feminino. Parecia que, enfim, tinha encontrado um elo de ligação entre as duas profissões a que sempre me dediquei: dança e psicologia.

Como em toda história de paixão... ao momento de entusiamo e novidade segue-se o tal momento de desilusão. Não sei se eu teria memória pra recordar todos os momentos de alegria e prazer, alternados, ou até mesmo concomitantes, aos momentos de desânimo. Foram inúmeras as vezes que tive vontade de desistir. Mas, como aqui estou comemorando quinze anos, podemos dizer que a persistência prevaleceu. Não posso deixar de agradecer aos meus terapêutas e alguns amigos aque me ajudaram a atravessar os desafios.

Mas, que desafios foram esses? Já que estou comemorando e não lamentando, relato aqui ao menos alguns aprendizados, fruto dessa travessia. Relatar todos seria realmente difícil.

  1. Desde muito cedo, aprendi e respeitei que não gosto de dançar em festa de aniversário, shopping center, despedida de solteiro, restaurante (salvo algumas raríssimas excessões), feira de moda, nem sob qualquer luz branca comun a escritório, casa ou hospital, mas totalmente inadequada a uma apresentação de dança.
  2. Não sigo padrões ditados por uma ou outra escola de dança que formata uma determinada maneira de dançar. Não acho que isso seja um mérito ou incompetência minha, apenas sou assim, não sei me enquadrar nesses formatos. Também não tenho nenhuma pretensão de ir contra quem o faz, muito menos quem segue.
  3. Geralmente a dança nos conecta com forças arquetípicas poderosas. Mas, nem eu, nem nenhuma outra dançarina é Ísis, Afrodite, Oxum, Inana ou outra deusa de qualquer panteão.
  4. A própria aluna precisa ter paciência com o seu aprendizado. Essa é a chave pra eu continuar paciente e curtindo dar aulas.
  5. Trabalhar com dança é, na maioria dos casos, financeiramente instável. Lidar com isso necessita de um constante aprendizado.
  6. Dançar pode ou não ser terapeutico. Mas, em muitos casos, ou em muitos momentos, é necessário ajuda da psicoterapia pra continuar dançando, mesmo que a dança limite-se apenas à sala de aula.
  7. A inveja existe. Algumas das possibilidades de neutralizá-la: fazer Reik se for eu o alvo da inveja; descobrir o que não estou fazendo por mim, caso seja eu a invejosa. E por aí vai... a lista pode ser imensa!

Continuando o momento “listinha”, vamos à de momentos especiais:

  1. Meu primeiro espetáculo em 1995, um ano depois de começar a dar aula, onde já fiz a primeira fusão, dança do ventre e dança afro. Muito bom descobrir anos depois que outras tantas pessoas no mundo fazem isso e que pode até ter um nome: Tribal Fusion.
  2. Encontrar uma professora talentosa e respeitosa com alunas, Fádua Chuffi, depois de estar cansada de fazer aulas com outras tantas que sequer se interessavam pelo nome das “pupilas”.
  3. Ministrar workshops no Vale do Capão (Chapada Diamantina – Ba). Várias horas de aula, banhos de cachoeira, trilhas, comida gostosa e muita, muita diversão com minhas parceiras de dança. Foram dez workshops realizados desde 2001 até o momento. Os próximos estão chegando e espero que venham muitos outros repletos de boas experiências!
  4. Realizar o espetáculo Zahra em 2005, onde pude concretizar um sonho estético com figurinos, cenário e direção cênica bem elaborados.
  5. Viagem pro Egito em 2007. Maravilhoso!
  6. Dançar algumas vezes com música ao vivo. Agradeço aos músicos Douglas Felis, Maurício Deodato, Ives Soeiro, Renê Dalton e Zen. No Brasil e, principalmente em Salvador, são raras essas oportunidades.
  7. Fazer aulas na Califórnia com dançarinas que muito me inspiram no Tribal e fusões: Carolena Nericcio, Rachel Brice, Zoe Jakes, dentre outras. Aqui também, a listinha poderia ser bem maior...

Percebo que relembrar esses fatos e história tem sido um ritual de passagem. Muitas mudanças estão ocorrendo interna e externamente. Desejos, situações e pessoas estão se afastando... Outras perspectivas estão se abrindo, apesar de não fazer a mínima idéia de como o futuro irá se configurar.

Estou rindo! Acho o mistério fantástico!

Meus agradecimentos inciais são justamente aos mistérios da vida, a que também chamo de Deus, que sabe-se lá porque nos faz percorrer um e não outro caminho. Agradeço a meu pai (em memória) por muitas heranças que me deixou, dentre elas, o gosto e a curiosidade pela cultura árabe e pela arte em geral. A Milton, meu marido, pela paciêcia e insentivo sempre. Às minhas alunas e ex-alunas e algumas delas que se tornaram amigas, pelo prazer de compartilhar a dança! E à todas minhas professoras e professores , assim como todos os profissionais dedicados, que fazem a dança do ventre ser sempre fascinante!

Sigo tranquila e aberta ao novo ciclo que se abre... Seja o que Deus quiser e o que meu coração guiar!

Bela Saffe

(Novembro de 2009)